INTRODUÇÃO
O presente trabalho tem como objetivo principal o
aprendizado e a pesquisa sobre o tema “Patrística”, em vista do aprendizado de
tão importante período filosófico, teológico e histórico na Igreja Cristã e no
mundo filosófico. No decorrer do trabalho, quero abordar de forma sintética e
objetiva os principais períodos dessa primeira fase da filosofia cristã, bem
como seus filósofos de maior importância. Não se trata de um trabalho
acadêmico, pois não está de acordo com as normas exigidas pela ABNT, mas foi
elaborado com pesquisas bibliográficas, e quer de uma forma simples expor o
assunto.
Escolhi o tema Patrística, pois desde o início de
minha formação à Vida Religiosa Consagrada esse tema me desperta grande
curiosidade, dado que dele a Igreja recorre para fundamentar muitos assuntos da
teologia atual. Lembro-me também que o primeiro livro que li na caminhada
vocacional foi “Relatos de um Peregrino Russo”, onde o autor relata seu caminho
espiritual a partir dos escritos dos Santos Padres no livro Filocalia.
Segue o trabalho com um breve relato desse importante
período da filosofia Antiga.
Patrística
1 1.
Elaboração do Novo Testamento.
Jesus de Nazaré, aquele a quem nós cristãos chamamos
de “Filho de Deus”, provocou uma reviravolta nos valores do mundo judeu.
Pregando um novo Reino, no qual não está em primeiro lugar a lei, mas o amor, a
adesão total aos princípios de sua mensagem, a qual é denominada Boa Notícia, e
principalmente, na aceitação da própria pessoa de Jesus Cristo. Pra Jesus
Cristo os princípios que as pessoas devem seguir vão muito além de valores
éticos. Ao contrário, quem optava e opta por seguir Jesus Cristo opta pela sua
pessoa, pelo próprio Cristo totalmente, não em partes. Não opta nem por
filosofias, mas por uma pessoa, o Filho de Deus.
Jesus, no entanto, nada escreveu
durante os anos em que exerceu sua missão. Todos aqueles que o escutaram falar,
seja em público ou nos diálogos pessoais sabiam suas palavras pelo que ouviram
dele, mas não possuíam nenhum manual de sua doutrina. Isso era sinal de que a
filosofia de Jesus não era para ser lida pelos sábios e literatos, mas estava
nos olhos, nos ouvidos, na boca e no coração do povo simples. As palavras de
Jesus não se baseavam em princípios ético-filosóficos, mas em princípios
teológicos, das virtudes da fé, esperança e caridade. Não estavam fundamentados
na razão humana, antes se fundamentavam no amor de Deus.
Muito se escreveu sobre as palavras
e ensinamentos de Jesus Cristo nos primeiros séculos que se seguiram à sua
ressurreição. Tantos eram os escritos que surgiram, que foram necessárias duas
importantes tarefas: a primeira de reunir todo o material produzido até então.
A segunda, a de analisar e selecionar os textos, distinguindo os documentos
fidedignos dos falsos, os autênticos dos inautênticos. Esse período se prolongou
até o ano de 367, quando o trabalho acabou e fixou-se quais seriam os livros
canônicos, e determinando os demais como apócrifos, por não estarem de acordo
com a veracidade histórica e teológica da vida de Jesus. Quanto ao Antigo
Testamento, ou seja, os livros do povo hebreu, utilizados pelo próprio Jesus
Cristo, os cristãos tiveram de aceitá-los, pois o próprio Jesus afirmou que
“não veio abolir as leis e os profetas, mas dar-lhes pleno cumprimento” (Mt
5,17).
2 2.
Primeiras tentativas de uma Filosofia Cristã.
Com o Evangelho de João e as Cartas
de Paulo inicia-se a elaboração doutrinal do conteúdo da Revelação, ou seja, da
nova mensagem trazida por Jesus Cristo. Neles estão os primeiros germes da
filosofia cristã, as primeiras tentativas de compreender a pregação de Cristo,
explicando à sua luz os problemas intrínsecos à existência humana. No Evangelho
de João, Jesus é a revelação do Logos (a razão) e o Verbo encarnado. O Verbo é
a sabedoria plena, de onde provêm todas as demais. Na filosofia/teologia de
João, Jesus é o Verbo feito ser humano, o mediador entre Deus e os seres
humanos e o Salvador para os que nele crerem.
Nas cartas de Paulo, os cristãos, até então provindos
exclusivamente da religião judaica, tomam consciência de sua missão universal. Ao
ressurgir da morte, Jesus salva todo o gênero humano, e em sua redenção todos
os seres humanos são redimidos. Isso causou uma grande reação dos cristãos
“judaizantes”, o que foi debatido no concílio de Jerusalém, onde se decidiu que
a todos os povos foi revelada a graça da salvação. Para Paulo, todos os
cristãos são membros de um mesmo Corpo, a Igreja, do qual Cristo é a cabeça.
Cada um dos membros tem a sua “vocação” e a harmonia do corpo acontece pelo
amor (ágape), fundamento da vida cristã.
Concílio de Jerusalém.
1 3.
Os Primeiros Padres da Igreja
Findado o período apostólico com a morte de João, o
único dos apóstolos a morrer naturalmente, exilado na ilha de Patmos, inicia-se
o período da patrística propriamente dito com o surgimento dos primeiros Padres.
Esses primeiros padres da Igreja não formularam, no entanto, completos sistemas
de filosofia cristã, pois se limitaram a parciais elaborações de problemas
apologéticos e teológicos. Até Agostinho, a Patrística é ocasional e
fragmentária, pois as questões tratadas surgem de acordo com as polêmicas da
época.
3.1.
Patrística Grega
Dentro de uma civilização marcada e embebida pela
filosofia grega, sob o encalço das perturbações, entre pagãos e gnósticos nasce
a patrística grega. Ela tem como missão esclarecer e defender e defender com a
ajuda das fórmulas dos pensamentos antigos, o conteúdo da nova fé. Em um
terreno de discussão filosófica, o cristianismo acaba sendo um continuador da
filosofia grega. Segundo a patrística grega a razão foi dada aos seres humanos
por Deus e é idêntica nos povos de todos os tempos; nesse contexto a Revelação
não é sua negação, mas seu remate. Para a patrística grega o importante foi
interpretar o conteúdo religioso com os conceitos da filosofia grega e dar à
filosofia grega uma significação cristã.
Os primeiros padres escrevem em defesa da nova
religião, contra as acusações dos pagãos e as perseguições, por isso são
chamados de Apologistas (Apologia= defesa). Dos padres apologistas gregos o
mais importante é São Justino, que viveu no século II e morreu mártir em Roma.
Pode ser considerado o fundador da patrística e é autor de duas apologias e de
um diálogo com Trífon judeu, onde se propõe demonstrar que a pregação de Cristo
completa o Velho Testamento. Justino considera a filosofia grega como
preparadora do Cristianismo e transforma Platão em discípulo de Moisés. A
patrística grega estava ligada à Igreja de Bizâncio e seus principais Padres
foram: São Justino, Taciano, Atenágoras, Teófilo e Aristides.
3.2 Heresia Gnóstica
O gnosticismo foi a mais importante heresia do
primeiro século. Seu grande erro foi reduzir todo o conteúdo da fé à razão e
com isso elaborar doutrinas religiosas a partir da filosofia grega que
questionavam a pessoa de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, sua
encarnação e seu sacrifício na cruz. Para os gnósticos a salvação não podia vir
do mundo material, somente do espiritual, portanto Cristo era um espírito
somente, já que a matéria é a fonte do mal. Somente poderiam alcançar o
verdadeiro conhecimento superior, os iniciados na gnose que era a própria
revelação de Deus, pela qual se pode chegar ao Transcendente. A gnose, ou
conhecimento divino é o caminho da salvação. Podemos considerar o gnosticismo
como uma seita religiosa do último período da filosofia grega, na qual há
elementos do sincretismo e do cristianismo. Diante de tal Heresia o trabalho
dos Santos Padres foi elaborar doutrinas para firmar a ortodoxia, transpondo a
doutrina grega e mantendo-se no espírito da nova doutrina cristã.

São Justino.
3.3.
Patrística Latina
No afã de contrapor o gnosticismo e suas heresias, os
Santos Padres da Igreja de Roma, ou ocidental, polemizam contra a mistura de
religião com a filosofia e reivindicam a originalidade da Revelação cristã, que
se funda sobre a fé e não sobre a especulação.
O mais vigoroso e eloquente dos apologistas latinos é
Tertuliano de Cartago nascido na segunda metade do século II e morto em Roma em
240. Polemista apaixonado (que acabou na heresia), escritor fecundíssimo de
obras apologéticas, dogmáticas e ascéticas, em sua obra-prima – Apologéticum –
considera a filosofia mãe de todas as heresias. Ela não tem nada de comum com a
fé, a qual é essencialmente mistério que nenhuma dialética jamais poderá
demonstrar. Os filósofos são “os patriarcas dos heréticos”, a verdade do
cristianismo se funda sobre a tradição e sobre a voz do senso comum ou do homem
simples e inculto. Para Tertuliano, quanto mais uma verdade religiosa é
incompreensível para a razão, mais é crível,digna de fé. “Creio, pois é absurdo
(incompreensível)” é a grande frase do Santo Padre. Com isso ele priva a fé de
qualquer base racional. Essa excessiva anti-racionalidade se explica como
reação ao racionalismo excessivo gnóstico. Nas doutrinas de Tertuliano vê-se
também um excessivo materialismo, que também podemos considerar reação ao gnosticismo.
Outros padres importantes da igreja de Roma: Arnóbio, Minúcio Félix e
Lactâncio.
3.4.
A Escola de Alexandria: Clemente e Orígenes.
Os padres da Igreja do oriente formularam uma “gnose”
cristã, uma espécie de filosofia que contrapunha à gnose dos heréticos. Eram
muito diferentes dos padres latinos, que formulavam suas apologias muito mais
polêmicas que as dos filósofos orientais. Ao contrário, os Padres do Oriente
formularam uma teoria orgânica coerente e racional, embasada em fundamentos da
filosofia clássica e que pudesse servir de fundamento ao Cristianismo. A escola
de Alexandria (Didascáleon) assumiu esta importante tarefa com Clemente (séc.
II e III) e Orígenes (séc. III) este considerado o maior dos pensadores
cristãos antes de Agostinho.
Clemente: Liga-se aos apologistas gregos e defende a
continuação histórica entre filosofia e a revelação cristã. Não há, a seu ver,
dissídio entre a gnose e a fé, ou melhor, a gnose está contida in genere na fé na qual encontra a sua
justificação. A gnose ou conhecimento é a tarefa do homem, mas pressupõe a ela
a fé, uma não pode substituir a outra. A filosofia é o caminho necessário para
juntar a fé à gnose. Em todo ser humano está uma “centelha do Logos divino”,
suficiente para fazer descobrir uma parte da verdade que, inteira, somente é
revelada por Cristo. A filosofia está subordinada à fé e não a fé à filosofia.
Por isso Cristo é o verdadeiro Mestre.
Orígenes: Oferece o primeiro sistema de filosofia cristã e
empreende a primeira exposição sistemática do dogma sob a influência da
filosofia greco-judaica. É também contemporâneo de Plotino, aquele que formulou
o último grande sistema de filosofia grega. Orígenes foi o primeiro grande
exegeta dos textos bíblicos, onde faz prevalecer a significação espiritual sobre
a corpórea. Convencido que a criação do mundo por parte de Deus apresente a
dificuldade de admitir uma mudança na imutável vontade divina, ele considera o
mundo coeterno a Deus: a criação é contínua e eterna. Como é eterno o Filho
gerado pelo Pai, assim é eterno o mundo como criação de Deus. Dessa forma os
conceitos “geração” do Filho e “criação” do Mundo são ligados estreitamente e o
criacionismo cristão é aproximado ao emanatismo neoplatônico. Orígenes é
cristão na vida até o martírio, grego na sua concepção do mundo e de Deus. A
antropologia nele volta a ser um elemento da cosmologia. A sua posição, no que
diz respeito ao problema de relação entre filosofia e fé, pode considerar-se a
antítese de Tertuliano: a fé, aprofundada, se faz conhecimento que no seu grau
mais alto, é superior ao Evangelho histórico.
1 4.
Santo Agostinho
O pensamento patrístico encontra sua sistematização e
conclusão na grandiosa síntese filosófico-teológico-exegética de Santo
Agostinho, o maior pensador da Igreja antiga, nascido no seio da África latina.
Agostinho se converte adulto ao cristianismo, e traz
para o cristianismo uma rica experiência filosófico-religiosa. Familiarizou-se
com o pensamento da antiguidade, especialmente com os neoplatônicos,
neopitagóricos e estóicos, com os epicureus e acadêmicos especialmente através
de Cícero; é Agostinho o canal que transmite uma parte do pensamento antigo ao
medieval. Ele, porém, diferente de Orígenes, e de outros padres da Igreja
grega, sabe transpor o antigo e inseri-lo originalmente na nova experiência
cristã.
O sujeito humano é o ponto de partida do filosofar
perene. Numa célebre passagem dos Solóquios, à Razão que lhe indaga: “Que
desejais conhecer?” Agostinho responde: “Deus e a alma desejo conhecer”. –
“Nada mais?” “Nada mais!”.
Para Agostinho, formular o problema do homem é
formular ao mesmo tempo, o problema de Deus: o homem não é apreendido em suas
profundidades ontológicas enquanto não for apreendido por Deus, cujo problema é
intrínseco ao problema que ele é a si mesmo. Sem que Agostinho se esqueça do
mundo, concentra toda a sua vontade e profunda especulação sobre o homem e
sobre Deus, problemas distintos, mas não separáveis.
O próprio diálogo do ser humano consigo mesmo já é um
diálogo com Deus, pois Agostinho está convencido que o ser humano não pode
conhecer-se sem Deus.
Santo Agostinho.
CONCLUSÃO
Ao
concluir o presente trabalho quero expressar a admiração diante da coragem dos
primeiros Santos Padres que ousaram explorar as profundidades da fé, ligando-as
ao pensamento filosófico. Muitas vezes pensamos que com a vinda de Jesus Cristo
o mundo Greco-romano foi cristianizado, ao estudar a Patrística, posso concluir
que ao ingressar no mundo filosófico, ao cristianismo foram também incorporados
inúmeros elementos da filosofia grega. Mais que uma revelação irracional, o
cristianismo foi a Grande revelação, acessível sim à razão humana, mas
incompreensível por ela nos seus mistérios profundos. Sobre a Verdade Revelada,
a filosofia grega encontrou espaço de construção de novos pensamentos cristãos.
Foi bom pesquisar e conhecer um
pouco mais sobre os esforços dos valentes exegetas da Igreja primitiva. Saber
como foi difícil para eles enfrentar as heresias sem deixar de ser fiel à Boa
Nova trazida por Jesus Cristo. Temos muito a aprender com os ensinamentos dos
Santos Padres, eles que viveram em um tempo em que a Igreja ainda não estava
atrelada ao poder, e quando ser cristão ainda não era “da moda”. Hoje ser
cristão, novamente está sendo um desafio. Viver a fé na Igreja, recusando o
poder oferecido pela instituição, servindo antes de ser servido e tentando ser
fiel à intuição original do Evangelho, sem perder o foco e os pilares
fundamentais da tradição da Igreja, é se aventurar como os primeiros Padres, é
ligar fé e vida, é ligar fé e luta por um mundo melhor.
Todos
esses apaixonados padres da Igreja antiga foram além daquilo que o cristianismo
esperava deles, ousaram elaborar novas doutrinas coerentes e de acordo com o
Evangelho mesmo que indo além do pensado até então. Mais do que nunca hoje é esse
o papel da nova teologia. Caminhar em sintonia com os avanços sociais e
tecnológicos, com a ciência, com a realidade global, dando respostas coerentes
com os valores do Evangelho a exemplo daqueles que o fizeram há quase dois
milênios.
-Andrei Thomaz Oss-Emer, OFM Cap
Bibliografia:
1. SCIACCA, Michele Federico, História da Filosofia
Vol I, Antiguidade e Idade Média. São Paulo, Editora Mestre Jou, 1967.
2. REALE, Giovanni e ANTISERI, Dario, História da
Filosofia Vol I. São Paulo, Paulinas, 1990.
3. CHAUÍ, Marilena, Convite à Filosofia. São Paulo, Editora Ática, 2000.
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