INTRODUÇÃO


"Não fiques atônito devido às novas idéias; pois sabes bem que uma coisa não deixa de ser verdade simplesmente por não ser aceita pela maioria."


-Baruch Espinosa



Olá! Seja bem-vindo ao blog Filodesafiando, composto por contribuições da turma de Filosofia da Universidade Católica de Pelotas-RS do ano de 2012. Por sugestão da nossa coordenadora do curso, Ângela Caruso, estamos lançando nossas pesquisas e observações filosóficas neste espaço. Nossa turma é longe de ser homogênea em pensamento, com cada indivíduo tendo distintas experiências de vida bem como diferentes compreensões das tão diversas áreas da Filosofia. Vemos este ambiente heterogêneo com grande entusiasmo, pois da discussão sadia de idéias regida pelos espíritos da amizade e aprendizado obtemos novos conhecimentos e aprimoramos nossas contextualizações do mundo, sejam eles sobre uma visão do período clássico ou uma discussão das questões da modernidade. Por isso escolhemos o nome "Filodesafiando".


Filo vem do grego Philia, um termo amplo que pode significar entre outras coisas amizade. A palavra desafio vem do latim, Desfidare, que significa afastar-se da fé. Aqui não usamos a fé no sentido teológico, mas sim no sentido da opinião sem critério, como os preconceitos e informações dadas como verdade ou mentira sem antes serem pesquisadas e analisadas. Ou seja, é o objetivo de nos afastarmos de conjecturas muitas vezes nocivas para a sociedade através do questionamento filosófico. Além disso, temos o significado atual de desafio, oriundo da idade média, que é provocar, testar idéias ou ações. A Filosofia nestes dois aspectos é um eterno desafio, o desafio de uma reflexão crítica quanto a nós mesmos e ao mundo que nos cerca. Então Filodesafiando nada mais é do que enfrentar esses desafios e argumentos apoiando-se nos preceitos da amizade e da livre troca de idéias que surge dela.


E a você, que está lendo esta introdução, sinta-se filodesafiado. Esperamos que nosso blog lhe seja útil em sua caminhada. O filodesafiamos para que seja conosco, através da filosofia, um filodesafiador!



-Apius Gilbert Escobar

sexta-feira, 27 de abril de 2012

The Way - O Caminho



PARTE 1



Proponho com esse artigo fazer algumas considerações sobre o filme The Way no qual assistimos no dia 17 - 04 – 12 na sala de aula da UCPel, na disciplina; Estudo, Pesquisa e Redação de Textos e Filosofia,  ministrada pela professora  Ângela Caruso  coordenadora do curso de filosofia.
Para que o leitor entenda a dimensão e o alcance que o filme atinge e para todos os efeitos, contextualizar o filme para o leitor ai tirar o melhor para si, apresento em linhas gerais, e do meu ponto de vista, considerando a razão e o sentimento como pilares da reflexão, algumas considerações que expressam de certo modo o que o filme mobilizou em mim. Com esse enfoque proponho um breve comentário expondo a sinopse e em linhas gerais tecer algumas considerações. Mas, sobretudo, para augurar aos leitores as mesmas emoções que senti ao assistir, de um só fôlego, esse memorável e inesquecível filme, marcado pelo estilo inconfundível e convincente do autor, ator, diretor, pai e filho.
E mais particularmente ainda, este filme mobilizou tanta coisa em mim, que posso lhes dizer sem medo de estar exagerando, que em mim, mobilizou minha vontade de renovação e conversão, sobretudo, com um compromisso de serviço fiel e generoso à igreja.  Foi pra mim, para todos os efeitos, uma renovação do gosto de viver e de sentido para a vida.
O filme em questão foi escrito e dirigido magnificamente por Emilo Estevez e estrelado pelo seu pai Martin Sheen como papel principal. Pai e filho na vida real, atuando e contracenando concomitantemente o que dá ao filme todo um aspecto emotivo e familiar. Penso que isso por si só, já é o suficiente para convida-nos a uma grande jornada.
Parto da premissa, que o filme é sem sombra de dúvida, uma história poderosa e uma inspiradora jornada espiritual para nossas vidas. Ou seja, emergem e se evidenciam algumas mensagens que revivem com impetuosa atualidade nos dias de hoje. E, portanto, um filme, jovial porque nele as novas gerações podem encontrar uma resposta às suas profundas inquietações, às generosas aspirações, às exigências de autenticidade e coerência cristã.
Há sempre uma oportunidade de aprender algo novo e a toda hora. E o filme mostra bem isso. Não esqueça, que cada vez que você aprende alguma coisa você passa a ser “uma coisa” nova... Você começa a caminhar se projetando para desenvolver-se num humano afetuoso. Isso é assombroso e magnifico ao mesmo tempo. Isto é singularidade. E garanto que o filme nos impulsiona a desenvolver nossa singularidade.
No que se refere ao caminho de São Thiago de Compostela, muitos buscam fazer este caminho a pé, a cavalo, outros buscam o comprimento de penitências, outros ainda, fazem para alcançar milagres, pagar promessas, e tem até quem diga aqueles que buscam uma aventura diferente na vida. São 800 km que atravessam as montanhas dos Pirinéus ao longo da fronteira franco-espanhola, a partir de St. Peid de Port. Porém muitos são as rotas para se chegar a São Thiago de Compostela. Em geral, um peregrino, pode completar o seu percurso, em mais ou menos oito semanas, caminhando entre 12 km até 15 km por dia. Na organização desta grande jornada a maioria dos peregrinos leva um documento que é a sua credencial, também chamada de passaporte do peregrino, que lhes dá acesso a descontos nas pousadas, alojamentos, albergues, assim caminhando até chegar à próxima pousada do peregrino. E ao concluir sua caminhada, é convidado para assistir a missa do peregrino, aonde acontecem todos os dias ao meio dia na catedral de São Thiago de Compostela. E de acordo com a tradição da igreja Católica, é aonde encontra os restos mortais do Apóstolo São Tiago. Assim, apresentando um passaporte devidamente carimbado em todas as paradas do trajeto chegando ao final o peregrino ganha um certificado de conclusão da caminha, escrita em latim, datada da idade média, aonde tudo começou... É uma tradição que se segue a mais de 1000 anos.




Voltando a raciocínio inicial, i,é. a história do filme, Thomas Avery, medico oftalmologista (Martin Sheen), tem um relacionamento um pouco perturbado de certo modo, com seu filho Daniel Avery ( Emilio Estevez). Mas tudo muda na vida de Tom, quando ele recebe um telefonema do capitão Henri (Tchéky  Karyo), para ir buscar seu filho, na Espanha, que morreu no primeiro dia da caminhada de São Thiago Compostela, pego de surpresa por uma tempestade. Entretanto, igualmente Tom também foi pego de surpresa, com ar de preocupação fugaz como se uma nuvem tivesse cruzado seu rosto, invocado a tristeza e a plenitude da perda, polos inseparáveis da vida humana. Aqui vale ressaltar que a morte pode ser motivo de aprendizagem humana. Outro sim, me faz lembrar do filosofo Cícero, quando argumenta que filosofar é outra coisa senão se preparar para a morte. Igualmente para Sócrates, cuja sua única ocupação consistiria em preparar-se para morrer. Entretanto, para nossa cultura ocidental, a morte é um enigma que nos assombra desde sempre. Ou seja, a morte quando mostra sua sombra ou nos vista com sua presença o mundo fica plano, estranho e desconhecido...
De volta ao filme, Tom para honrar o desejo do seu filho, resolve fazer a caminhada pelo filho, colocando as cinzas em cada ponto de parada ou passagem. Este profundo impacto de mudança na vida de Tom se dá igualmente na vida de outros peregrinos que ele encontra pelo caminho. Um holandês, no papel de Joost (Yorick Van Wageningem), uma canadense, no papel de Sarah ( Debora Kara Unger) e um escritor irlandês, Jack (James Nesbitt), esse último sofrendo de um certo bloqueio de escritor.
Aqui cabe outra observação; parto da premissa, que verdadeiramente começa toda lógica do filme. Cada um com suas histórias, objetivos e sentidos da caminhada. E uma coisa posso lhe garantir, querido leitor, que eles nunca mais vão ser os mesmos depois de completar o CAMINHO.
Assim como eles, estamos à procura de algo para as nossas vidas, algo que nos dê sentido, que valha a pena morrer e gastar a vida. De fé, talvez respostas, beleza para outros, estamos todos numa grande viagem chamada vida como peregrinos nesta jornada.
Como Tom descobriu a diferença entre a; “vida que vivemos e a vida que queremos” sustento aqui a hipótese, que se alguém ainda não descobriu o sentido de sua vida, qual o seu propósito, e se ainda não fez essas perguntas, ao assistir este filme certamente poderá começar a levantar estas questões dentro de si.
Penso se tivermos essa atitude, estaremos nos tornando mais humanos. Para isso precisamos estender nossas mãos e nos arriscar. Contudo, arriscar é se expor ao fracasso, mas os riscos tem que ser corridos. Pois o maior perigo em nossas vidas é não arriscar nada. E aquele que não arrisca nada, que não tem nada, não é nada em sua vida, não faz nada. Podemos até evitarmos o sofrimento e a dor nos acorrentando por nossas certezas e vícios, ou nos protegendo, metaforicamente “dentro de uma bolha de proteção”, com nossas ideias autodestruidoras, sacrificando nosso maior predicado que é nossa liberdade. Na perspectiva psicanalítica, podemos dizer, que só a pessoa que arisca é livre.
Agrada-me muito o livro Souls on Fire (Armas de Fogo), de Wwils, um admirável escritor Judeu, no qual ele descreve um maravilhoso pensamento: “quando você morrer e for ter com o seu criador, não vão lhe perguntar por que não se tornou um messias ou descobriu a cura do câncer, mas só vão lhe perguntar por que você não se tornou você? Por que não se tornou tudo que é?”. Para mim isso é assombroso, aterrorizante, magnifico, assustador, libertador. Ou seja, muitos de nós, estamos vivendo uma vida sem implicar-se e sem se envolver com nada. Em última análise, estamos perdendo nossa capacidade de se envolver profundamente com alguma coisa. Temos medo da vida, medo de ser o que somos. Assim, não vivemos plenamente e impedimos que os outros vivam a sua plenitude. Trata-se, com efeito, de nos tornarmos NÓS... De chegarmos a sermos nós.
Neste aspecto, precisamos aprender a ariscar de novo, isto é, o risco é a chave para a mudança e arriscar-se é mostrar a nossa humanidade.




No filme The Way, para os personagens peregrinos, sua jornada é profundamente espiritual como é para cada um de nós na vida real. Esse filme atinge sua marca nos deixando várias mensagens, sendo de que todos independente de sua classe social ou de onde se encontra, estamos todos percorrendo um caminho, nossa grande jornada que é nossa vida. E que no fundo é uma grande questão filosófica, de descobrir a si mesmo.
Por fim, mas não menos importante, como o personagem Tom (Martin Shenn) descobre a diferença entre a vida que vivemos e a vida que nós escolhemos, somos obrigados pela nossa consciência em nos perguntar: Você já se tornou tudo que é? Você se tornou você? De algum modo, em algum momento de sua vida, tenho a esperança se por acaso, você ainda não alcançou as suas respostas, o melhor momento pode ser é agora. E que tal, descobrirmos nossa humanidade, percorrendo esse caminho juntos? Portanto, faça você nascer e renascer quantas vezes forem necessárias, para não privar a beleza da vida. Se tiver, aprenda a perdoar, a acreditar que sou mais igual do que diferente de você.  Estou muito ativamente empenhado com a vida, e quero tudo que a vida é. Vamos fazer um trato? Chega de andar por ai fingindo que sabemos de tudo, que somos todos tão seguros, que não precisamos, quando seria muito mais fácil para todos nós podermos dizer em alta voz: sou vulnerável, erro, sou imperfeito, tenho medo, mas quer saber, sou humano e esse é meu maior predicado é isso é verdadeiramente e realmente desejo ser. Isso não é assombroso? Somos mais iguais do que diferentes. Mas temos mais capacidade de cuidarmos melhor um do outro. Para tal, precisamos aprender a confiar de novo, aprender a acreditar... EXPERIMENTE!!! Pois você nunca saberá até acreditar. Não esqueça que mostrar seus sentimentos é expor sua humanidade e estender sua mão aos outros é arriscar-se a se envolver, mas que outra coisa na vida é mais importante do que se envolver? Como ousam morrer sem terem tornado tudo que são!
Há anos que filósofos e psicólogos vem dizendo que você é tudo que você tem. Portanto, torne-se a pessoa mais bela, terna e maravilhosa do mundo e poderá sobreviver para sempre. Lembra-se de Medéia, na tragédia grega?  Lembram-se da frase daquela bela peça, em que tudo se foi e o oráculo chega para ela e diz: Medéia, o que resta? Tudo esta destruído, tudo se foi. Ela diz: o que resta? Eu! Isso que é mulher. Resta tudo... Quando reconhecermos essa importância, o respeito, o amor por si próprio, e perceber que todas as coisas vêm de você então poderá se dar aos outros.
Escolha o modo de vida, de amar de se interessar pelos outros, de crer no amanhã, de confiar. Escolha o modo de crer na bondade. Cabe a você. A escolha é sua, pois a vida é uma opção. Saia e faça a vida acontecer. Faça a vida dar certo. Só depende de você.

Que tal experimentarmos juntos?
Estou esperando sua decisão, peregrino.
Miguel Quadros
Acadêmico de Filosofia

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