PARTE 1
Proponho com esse
artigo fazer algumas considerações sobre o filme The Way no qual assistimos no dia 17 - 04 – 12 na sala de aula da
UCPel, na disciplina; Estudo, Pesquisa e
Redação de Textos e Filosofia,
ministrada pela professora Ângela
Caruso coordenadora do curso de
filosofia.
Para que o leitor entenda a dimensão e o alcance que o
filme atinge e para todos os efeitos, contextualizar o filme para o leitor ai
tirar o melhor para si, apresento em linhas gerais, e do meu ponto de vista,
considerando a razão e o sentimento como pilares da reflexão, algumas
considerações que expressam de certo modo o que o filme mobilizou em mim. Com
esse enfoque proponho um breve comentário expondo a sinopse e em linhas gerais
tecer algumas considerações. Mas, sobretudo, para augurar aos leitores as
mesmas emoções que senti ao assistir, de um só fôlego, esse memorável e
inesquecível filme, marcado pelo estilo inconfundível e convincente do autor,
ator, diretor, pai e filho.
E mais particularmente ainda, este filme mobilizou tanta
coisa em mim, que posso lhes dizer sem medo de estar exagerando, que em mim,
mobilizou minha vontade de renovação e conversão, sobretudo, com um compromisso
de serviço fiel e generoso à igreja. Foi
pra mim, para todos os efeitos, uma renovação do gosto de viver e de sentido
para a vida.
O filme em questão foi escrito e dirigido magnificamente
por Emilo Estevez e estrelado pelo seu pai Martin Sheen como papel principal.
Pai e filho na vida real, atuando e contracenando concomitantemente o que dá ao
filme todo um aspecto emotivo e familiar. Penso que isso por si só, já é o
suficiente para convida-nos a uma grande jornada.
Parto da premissa, que o filme é sem sombra de dúvida, uma
história poderosa e uma inspiradora jornada espiritual para nossas vidas. Ou
seja, emergem e se evidenciam algumas mensagens que revivem com impetuosa
atualidade nos dias de hoje. E, portanto, um filme, jovial porque nele as novas
gerações podem encontrar uma resposta às suas profundas inquietações, às
generosas aspirações, às exigências de autenticidade e coerência cristã.
Há sempre uma oportunidade de aprender algo novo e a toda
hora. E o filme mostra bem isso. Não esqueça, que cada vez que você aprende
alguma coisa você passa a ser “uma coisa” nova... Você começa a caminhar se
projetando para desenvolver-se num humano afetuoso. Isso é assombroso e
magnifico ao mesmo tempo. Isto é singularidade. E garanto que o filme nos
impulsiona a desenvolver nossa singularidade.
No que se refere ao caminho de São Thiago de Compostela, muitos
buscam fazer este caminho a pé, a cavalo, outros buscam o comprimento de
penitências, outros ainda, fazem para alcançar milagres, pagar promessas, e tem
até quem diga aqueles que buscam uma aventura diferente na vida. São 800 km que
atravessam as montanhas dos Pirinéus ao longo da fronteira franco-espanhola, a
partir de St. Peid de Port. Porém muitos são as rotas para se chegar a São Thiago
de Compostela. Em geral, um peregrino, pode completar o seu percurso, em mais ou
menos oito semanas, caminhando entre 12 km até 15 km por dia. Na organização
desta grande jornada a maioria dos peregrinos leva um documento que é a sua
credencial, também chamada de passaporte
do peregrino, que lhes dá acesso a descontos nas pousadas, alojamentos,
albergues, assim caminhando até chegar à próxima pousada do peregrino. E ao concluir
sua caminhada, é convidado para assistir a missa do peregrino, aonde acontecem
todos os dias ao meio dia na catedral de São Thiago de Compostela. E de acordo com
a tradição da igreja Católica, é aonde encontra os restos mortais do Apóstolo
São Tiago. Assim, apresentando um passaporte devidamente carimbado em todas as
paradas do trajeto chegando ao final o peregrino ganha um certificado de
conclusão da caminha, escrita em latim, datada da idade média, aonde tudo
começou... É uma tradição que se segue a mais de 1000 anos.

Voltando a raciocínio inicial, i,é. a história do filme,
Thomas Avery, medico oftalmologista (Martin Sheen), tem um relacionamento um
pouco perturbado de certo modo, com seu filho Daniel Avery ( Emilio Estevez).
Mas tudo muda na vida de Tom, quando ele recebe um telefonema do capitão Henri (Tchéky Karyo), para ir buscar seu filho, na Espanha,
que morreu no primeiro dia da caminhada de São Thiago Compostela, pego de
surpresa por uma tempestade. Entretanto, igualmente Tom também foi pego de
surpresa, com ar de preocupação fugaz como se uma nuvem tivesse cruzado seu rosto,
invocado a tristeza e a plenitude da perda, polos inseparáveis da vida humana.
Aqui vale ressaltar que a morte pode ser motivo de aprendizagem humana. Outro
sim, me faz lembrar do filosofo Cícero, quando argumenta que filosofar é outra
coisa senão se preparar para a morte. Igualmente para Sócrates, cuja sua única
ocupação consistiria em preparar-se para morrer. Entretanto, para nossa cultura
ocidental, a morte é um enigma que nos assombra desde sempre. Ou seja, a morte
quando mostra sua sombra ou nos vista com sua presença o mundo fica plano,
estranho e desconhecido...
De volta ao filme, Tom para honrar o desejo do seu filho,
resolve fazer a caminhada pelo filho, colocando as cinzas em cada ponto de
parada ou passagem. Este profundo impacto de mudança na vida de Tom se dá
igualmente na vida de outros peregrinos que ele encontra pelo caminho. Um
holandês, no papel de Joost (Yorick Van Wageningem), uma canadense, no papel de
Sarah ( Debora Kara Unger) e um escritor irlandês, Jack (James Nesbitt), esse último
sofrendo de um certo bloqueio de escritor.
Aqui cabe outra observação; parto da premissa, que verdadeiramente
começa toda lógica do filme. Cada um com suas histórias, objetivos e sentidos
da caminhada. E uma coisa posso lhe garantir, querido leitor, que eles nunca
mais vão ser os mesmos depois de completar o CAMINHO.
Assim como eles, estamos à procura de algo para as nossas
vidas, algo que nos dê sentido, que valha a pena morrer e gastar a vida. De fé,
talvez respostas, beleza para outros, estamos todos numa grande viagem chamada
vida como peregrinos nesta jornada.
Como Tom descobriu a diferença entre a; “vida que vivemos e a vida que queremos” sustento
aqui a hipótese, que se alguém ainda não descobriu o sentido de sua vida, qual
o seu propósito, e se ainda não fez essas perguntas, ao assistir este filme
certamente poderá começar a levantar estas questões dentro de si.
Penso se tivermos essa atitude, estaremos nos tornando mais
humanos. Para isso precisamos estender nossas mãos e nos arriscar. Contudo, arriscar
é se expor ao fracasso, mas os riscos tem que ser corridos. Pois o maior perigo
em nossas vidas é não arriscar nada. E aquele que não arrisca nada, que não tem
nada, não é nada em sua vida, não faz nada. Podemos até evitarmos o sofrimento
e a dor nos acorrentando por nossas certezas e vícios, ou nos protegendo,
metaforicamente “dentro de uma bolha de proteção”, com nossas ideias
autodestruidoras, sacrificando nosso maior predicado que é nossa liberdade. Na
perspectiva psicanalítica, podemos dizer, que só a pessoa que arisca é livre.
Agrada-me muito o livro Souls on Fire (Armas de Fogo), de
Wwils, um admirável escritor Judeu, no qual ele descreve um maravilhoso
pensamento: “quando você morrer e for ter
com o seu criador, não vão lhe perguntar por que não se tornou um messias ou
descobriu a cura do câncer, mas só vão lhe perguntar por que você não se tornou
você? Por que não se tornou tudo que é?”. Para mim isso é assombroso,
aterrorizante, magnifico, assustador, libertador. Ou seja, muitos de nós,
estamos vivendo uma vida sem implicar-se e sem se envolver com nada. Em última
análise, estamos perdendo nossa capacidade de se envolver profundamente com
alguma coisa. Temos medo da vida, medo de ser o que somos. Assim, não vivemos
plenamente e impedimos que os outros vivam a sua plenitude. Trata-se, com
efeito, de nos tornarmos NÓS... De chegarmos a sermos nós.
Neste aspecto, precisamos aprender a ariscar de novo, isto
é, o risco é a chave para a mudança e arriscar-se é mostrar a nossa humanidade.
No filme The Way, para os personagens peregrinos, sua
jornada é profundamente espiritual como é para cada um de nós na vida real.
Esse filme atinge sua marca nos deixando várias mensagens, sendo de que todos
independente de sua classe social ou de onde se encontra, estamos todos
percorrendo um caminho, nossa grande jornada que é nossa vida. E que no fundo é
uma grande questão filosófica, de descobrir a si mesmo.
Por fim, mas não menos importante, como o personagem Tom
(Martin Shenn) descobre a diferença entre a vida que vivemos e a vida que nós
escolhemos, somos obrigados pela nossa consciência em nos perguntar: Você já se tornou tudo que é? Você se
tornou você? De algum modo, em algum momento de sua vida, tenho a esperança
se por acaso, você ainda não alcançou as suas respostas, o melhor momento pode
ser é agora. E que tal, descobrirmos nossa humanidade, percorrendo esse caminho
juntos? Portanto, faça você nascer e renascer quantas vezes forem necessárias,
para não privar a beleza da vida. Se tiver, aprenda a perdoar, a acreditar que
sou mais igual do que diferente de você. Estou muito ativamente empenhado com a vida, e
quero tudo que a vida é. Vamos fazer um trato? Chega de andar por ai fingindo
que sabemos de tudo, que somos todos tão seguros, que não precisamos, quando
seria muito mais fácil para todos nós podermos dizer em alta voz: sou vulnerável, erro, sou imperfeito,
tenho medo, mas quer saber, sou humano e esse é meu maior predicado é isso é
verdadeiramente e realmente desejo ser. Isso não é assombroso? Somos
mais iguais do que diferentes. Mas temos mais capacidade de cuidarmos melhor um
do outro. Para tal, precisamos aprender a confiar de novo, aprender a
acreditar... EXPERIMENTE!!! Pois você nunca saberá até acreditar. Não esqueça
que mostrar seus sentimentos é expor sua humanidade e estender sua mão aos
outros é arriscar-se a se envolver, mas que outra coisa na vida é mais
importante do que se envolver? Como ousam morrer sem terem tornado tudo que
são!
Há anos que filósofos e psicólogos vem dizendo que você é
tudo que você tem. Portanto, torne-se a pessoa mais bela, terna e maravilhosa
do mundo e poderá sobreviver para sempre. Lembra-se de Medéia, na tragédia
grega? Lembram-se da frase daquela bela
peça, em que tudo se foi e o oráculo chega para ela e diz: Medéia, o que resta?
Tudo esta destruído, tudo se foi. Ela diz: o
que resta? Eu! Isso que é mulher. Resta tudo... Quando reconhecermos
essa importância, o respeito, o amor por si próprio, e perceber que todas as
coisas vêm de você então poderá se dar aos outros.
Escolha o modo de vida, de amar de se interessar pelos
outros, de crer no amanhã, de confiar. Escolha o modo de crer na bondade. Cabe
a você. A escolha é sua, pois a vida é uma opção. Saia e faça a vida acontecer.
Faça a vida dar certo. Só depende de você.
Que tal experimentarmos juntos?
Estou esperando sua decisão, peregrino.
Miguel Quadros
Acadêmico de Filosofia
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