INTRODUÇÃO


"Não fiques atônito devido às novas idéias; pois sabes bem que uma coisa não deixa de ser verdade simplesmente por não ser aceita pela maioria."


-Baruch Espinosa



Olá! Seja bem-vindo ao blog Filodesafiando, composto por contribuições da turma de Filosofia da Universidade Católica de Pelotas-RS do ano de 2012. Por sugestão da nossa coordenadora do curso, Ângela Caruso, estamos lançando nossas pesquisas e observações filosóficas neste espaço. Nossa turma é longe de ser homogênea em pensamento, com cada indivíduo tendo distintas experiências de vida bem como diferentes compreensões das tão diversas áreas da Filosofia. Vemos este ambiente heterogêneo com grande entusiasmo, pois da discussão sadia de idéias regida pelos espíritos da amizade e aprendizado obtemos novos conhecimentos e aprimoramos nossas contextualizações do mundo, sejam eles sobre uma visão do período clássico ou uma discussão das questões da modernidade. Por isso escolhemos o nome "Filodesafiando".


Filo vem do grego Philia, um termo amplo que pode significar entre outras coisas amizade. A palavra desafio vem do latim, Desfidare, que significa afastar-se da fé. Aqui não usamos a fé no sentido teológico, mas sim no sentido da opinião sem critério, como os preconceitos e informações dadas como verdade ou mentira sem antes serem pesquisadas e analisadas. Ou seja, é o objetivo de nos afastarmos de conjecturas muitas vezes nocivas para a sociedade através do questionamento filosófico. Além disso, temos o significado atual de desafio, oriundo da idade média, que é provocar, testar idéias ou ações. A Filosofia nestes dois aspectos é um eterno desafio, o desafio de uma reflexão crítica quanto a nós mesmos e ao mundo que nos cerca. Então Filodesafiando nada mais é do que enfrentar esses desafios e argumentos apoiando-se nos preceitos da amizade e da livre troca de idéias que surge dela.


E a você, que está lendo esta introdução, sinta-se filodesafiado. Esperamos que nosso blog lhe seja útil em sua caminhada. O filodesafiamos para que seja conosco, através da filosofia, um filodesafiador!



-Apius Gilbert Escobar

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A importância do interesse na política

"O maior castigo de quem se furta à obrigação de governar é vir a ser governado por alguém pior que ele."

-Sócrates, na República de Platão, Livro I



Sócrates, Patrono da Filosofia.

 

Política é uma palavra derivada do termo grego politiké. O significado de politiké é a arte de governar a Polis, que em sua essência significa cidade. De Polis temos outras palavras como polites, cidadão, e politikos, alguém que exerce sua cidadania ou político. Hoje Polis refere-se mais às cidades-estado Gregas da antiguidade e política aos Estados, os países modernos, e suas cidades.

Desde sua concepção, política e cidadania andam juntas. Para os gregos da antiguidade, a polis é a essência da sociedade: sem ela, não existe o povo grego. Ser um político nada mais é do que exercer sua cidadania, não necessariamente em posições do governo, mas participando e aprimorando a sociedade em que vive. Então aqui temos a política como algo positivo para os gregos. Aquele que se privava da vida pública ou política, que se esquivava de exercer sua cidadania, era conhecido como Idiotes, ou idiota. Aqui a palavra tem o significado de pessoa egoísta, vulgar, que só se preocupa consigo mesma.

Na modernidade, ouvimos muito a idéia de que a política é complicada, algo de "outro mundo", que é chata e que é desnecessário entendê-la. Prevalece então o pensamento de que mais vale ser um idiota do que um cidadão.

Mas é difícil encontrar uma pessoa inteiramente idiota, mesmo que tenha convicção ao afirmar que não gosta ou não entende de política. Como vimos, a política é natural do ser humano no momento em que ele vive em sociedade. Ser um político também é fazer serviço comunitário, é encontrar abrigo para animais abandonados, é respeitar e cuidar de nossa família e amigos, é divulgar uma notícia interessante nas redes sociais, é conversar sobre assuntos polêmicos e muitas outras coisas. Isso é cidadania. É procurar aprimorar o nosso país, é fazer o bem para os indivíduos da nossa sociedade.

Se temos tantos indivíduos capazes de fazer o bem, qual a razão do pouco interesse na política quando ela passa para sua extensão natural de assuntos do Estado?

Sócrates diz na República que a razão das pessoas de bem não decidirem participar da política é o sentimento vergonhoso que acompanha o amor às honrarias e dinheiro que um cargo político oferece. As pessoas de bem não desejam ser conhecidas como mercenárias, que estão na política apenas pelo dinheiro ou como corruptas, que agem para obterem benefícios secretamente com desvios de verbas; ou não participam da política com o receio de que se tornem vítimas de joguetes de poder (como o próprio Sócrates foi, duas vezes em duas formas de governo diferentes, como é citado em sua Apologia). Diz também que as honrarias não as atraem por razão de não serem ambiciosas - não manifestam a soberba ou o orgulho doentio, que costumam acompanhar pessoas ambiciosas.

Para que uma pessoa de bem venha a se interessar pela política do Estado, é necessário que tome consciência de que o pior castigo possível por esquivar-se desta responsabilidade é o de ser governado por alguém pior, que justamente procura o status de ser político, o salário elevado e que agirá em segredo corrompendo instituições e privilegiando quem bem entender, ao invés de considerar o verdadeiro propósito de seu cargo: Trabalhar pelo interesse comum, servir a sociedade no máximo de sua capacidade e nunca agir em benefício próprio.


Dom Pedro II, O Imperador Filósofo, é um dos maiores Estadistas de nossa história.


Em suma, essa é a importância do interesse na política. Temos que deixar a idiotisse de lado e exercer plenamente a nossa cidadania, pois os bons políticos não caem do céu nem os maus escalam do inferno (apesar de ser o aparente) para ocuparem cargos no governo. Eles vêm da nossa sociedade. Procurem conhecer um pouco melhor a política, saibam que votam em um partido e não simplesmente em uma pessoa e saibam diferenciar os partidos e as pessoas. Sejamos politicamente ativos no âmbito de querer o melhor para nossa sociedade, a favor da justiça, da ética e do bem comum. Somente assim removeremos a marca da corrupção que mancha nossa política.

Votem, e votem com consciência!


-Apius Gilbert Escobar

2 comentários:

  1. Interessante como era importante para os gregos participarem ativamente, da politica. Agora minha pergunta é, em que momento da historia isso se desvirtuou? Porque tantas coisas foram herdadas dos gregos e o interesse politico não se manifestou em outras culturas?

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  2. Bom, acho que vou precisar contextualizar um pouco o período clássico grego pra poder responder. Diferente da nossa época, ser um cidadão não era um direito e sim um privilégio. E esse privilégio servia apenas aos homens adultos da Polis. Mulheres, crianças, escravos e estrangeiros não eram considerados cidadãos e sim propriedade dos cidadãos, assim como terras ou dinheiro. E como um privilégio de poucos, existia o forte sentimento de usa-lo e garanti-lo. O interessante é que quando ocorria alguma votação de leis ou julgamento, os cidadãos eram escolhidos por método de sorteio, o que garantia uma certa imparcialidade nas decisões.

    Existe a questão também do pensamento da Polis ser a entidade suprema e reguladora dos privilégios. Como uma cidade-estado, nela deve conter o necessário para manter a sociedade, logo não existia maior honra do que morrer em defesa da Polis, mesmo porque ser conquistado poderia significar que todos perderiam os seus privilégios. Esse "proto nacionalismo" é crucial para a importância da política na Grécia democrática. Democracia essa que difere muito da idéia moderna, claro. Os romanos tinham uma grande ênfase na política mas de maneira diferente.

    Creio eu que o desinteresse atual venha de três considerações: Primeiro, muitos ainda vêem a política como privilégio de poucos, quando na verdade é um direito de todos. Segundo, o individualismo acentuado que o mundo tem na visão antropocentrista defasada que o rege. E terceiro, na própria questão de ser um direito ao invés de um privilégio. Não que seja ruim, é óbvio que é preferível que seja um direito, mas como está garantido existe pouca ação para integra-lo na educação básica, por exemplo, pois talvez seja mais adequado a alguém ou grupo (quem?) que os cidadãos fiquem alienados. E quando existe esta integração a política é usada (sutilmente ou abertamente) como instrumento doutrinador de visões políticas específicas e não no contexto de formar um indivíduo crítico em relação à política, e nesse caso quem não fica desiludido com a doutrinação torna-se um peão de interesses de terceiros sem uma verdadeira noção do que é a política. Falo isso por experiência própria, em todas as instituições do ensino médio que estudei, quando tive algum contato com a política por intermédio de professores recebi uma doutrinação e não uma visão imparcial. Foi a curiosidade de uma visão mais ampla que me levou a iniciar estudos da política, mas pelo que vi não são muitos esses casos.

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